O legado de Pavarotti

Hoje é dia de recordar um dos meus grandes ídolos, Luciano Pavarotti. Nascido no Norte de Itália, em Modena (1935 ), era filho de um padeiro e tenor (embora amador) e de uma operária fabril. A Segunda Guerra Mundial fez com que a família se mudasse para o campo, onde desenvolveu interesse pela agricultura. Com… Continue a ler O legado de Pavarotti

O meu amigo José Pedro Borges

Conheci o José Borges em 1988, quando veio gerir a agência do Totta & Açores de Cascais ( hoje Santander ), um dos locais mais bizarros que existiam nessa atividade.
Isto porque, grande parte dos seus funcionários eram muito devotos do álcool e  patuscadas. O relevante para o caso é que as patuscadas tinham lugar na cave da agência, pelo que, não raras vezes quando os clientes chegavam ao balcão levavam com o cheiro a fritos e aromas semelhantes.
As reclamações terão sido muitas o que levou a que o Dr. Alípio Dias,  Administrador do Banco, tivesse convocado o JP Borges para uma reunião onde lhe terá dito algo como:
– Precisamos de um novo Gerente para o Balcão de Cascais. Procurámos nos nossos recursos humanos, alguém que reúna dois requisitos: saiba beijar a mão a uma senhora e que goste de música clássica. Com este perfil, só o encontrámos a si. Aceita?
Assim, o JP Borges veio para Cascais para uma nova etapa da sua vida onde tive o privilégio de o conhecer.
A empatia foi imediata e foi-se cimentando em muitas reuniões e almoços, nos quais se foi revelando um gentleman com uma enorme paixão pela música clássica.  Vivia em Alfragide, com a sua companheira de que não era muito militante e de quem, não obstante, tinha uma filha. Adorava viajar, conhecia todo o mundo,  Transiberiano incluído. Ateu, não gostava de futebol e nunca votou em eleições ( que coisa estranha…). 

As conversas evoluíram para as programações musicais. Começou então a convidar-nos ( a mim e à Manela ) para concertos sobretudo na Gulbenkian, na Sociedade de Geografia, no Coliseu etc.

O primeiro recordo bem. Na Gulbenkian, Claudio Arrau, 3º concerto para piano. Maravilhoso.

Quando chegámos, lá estava ele à entrada com os bilhetes na mão e com um pormenor que muito nos impressionou. Duas senhas para tomar café ao intervalo. Era uma cortesia muito bem vinda atendendo às longas filas que se formavam e reveladora da sua imensa simpatia.

Vimos inúmeros concertos juntos e fui aprendendo grande parte do que sei de música.

No início de 1990, disse-lhe que estava a pensar fazer uma viagem de carro até ao Sul de Itália com a família e, se possível, assistir à abertura da temporada de ópera na Arena de Verona.   No nosso almoço seguinte, apareceu-me com dois bilhetes comprados na Agência Marsans, no Rossio, como sempre fazia quando ia a concertos no estrangeiro.  5 contos, o que era muito barato atendendo ao custo dos espetáculos de ópera em Portugal. 

Consegui assim concretizar um grande sonho.

Posteriormente, quando saí da Misericórdia estivemos largos anos ( 7, 8 não sei bem ) sem nos vermos.

Até que, como diz o nosso povo ” Quem se quer bem sempre se encontra “, num dia de Verão fomos a um concerto no Hotel Palácio e reencontrámo-lo. Logo combinámos retomar os nossos encontros. Ele já estava reformado e eu no Jardim Zoológico. Concertos, mais que muitos e uma novidade ” Os concertos comentados ” sobretudo por Rui Vieira Nery.

Almoçávamos todas as quintas feiras e passei a conviver com a sua tertúlia de melómanos, que incluia o compositor Eurico Carrapatoso, um elemento do coral Stella Maris e outras verdadeiras enciclopédias com quem muito aprendi sobretudo sobre Verdi e Puccini.

Tinha a paciência de me gravar CD´S ( vinham com a sigla Estúdios de Alfragide ) desde Astor Piazzola a Concertos clássicos e uma pérola – Uma noite em casa de Amália, com a própria, Vinicius, David Mourão Ferreira, Natália Correia, etc.

Entretanto, comecei a notar que a sua saúde não estava bem. Muito calado e triste o que não era de todo seu.

De repente, deixou de dar sinal. Telemóvel desligado. Todo o mundo à sua procura. Localizámo-lo na CUF Infante Santo. Cancro na bexiga.

Da última vez que o visitei apercebi-me que tinha chegado ao fim.

Obrigado José Borges ou Giuseppe Borghius como por vezes assinava as suas mensagens.

Cascais, 25 de Agosto de 2024

Nuno Machado