A minha música

A propósito do extraordinário recital que o pianista russo Nikolai Lugansky deu ontem na Gulbenkian ( 2º concerto para piano de Sergei Rachmaninoff ), fiquei a refletir sobre a forma algo primária como não raras vezes se reage ao facto de não se dissociar o gosto por um artista ou uma obra, com a sua origem de qualquer natureza ( étnica, geográfica, política, religiosa etc. ).

Esta reflexão já tinha sido assunto na tertúlia em que participo às 3ªs feiras, e onde partidários de direita, sociais-democratas e socialistas, conseguiram colocar-se de acordo ( !!! ) sobre este tema e captar para a nossa mesa um histórico agente musical que partilhou e acentuou a nossa visão sobre o tema.

Foi lindo de ver que homens de direita reconheceram a qualidade da música de José Afonso, Carlos Paredes, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto, Jorge Palma, Rui Veloso ou Patxi Andion, Modest Mussorgsky e Rismsky-Korsakov e recordarem que Rachmaninoff e Stravinsky se exilaram nos EUA para fugirem à besta soviética e até mesmo Shostakovitch idolatrado em determinados momentos pelo regime soviético, foi diversas vezes aos EUA e manteve imensos contactos com a cultura americana.

A lista seria interminável.

Na música brasileira, a obra de Jobim, João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Vinicius de Morais, Maria Bethânia é rotulável? No pop-rock, Beatles, Stones, Genesis, Doors, U2 são rotuláveis ?

Em tempos de guerras que certamente a todos preocupam, e cujo fim parece cada vez mais distante, quero poder continuar a sentir com a música que adoro uma sensação de arrepio, de pele de galinha, que ocorre quando me emociono ao ouvir as obras que me acompanham nas minhas caminhadas – 5º concerto para piano de Beethoven, 5ª sinfonia de Mahler, 2º concerto para piano de Rachmaninoff, Carlos Paredes, Sétima Legião ou Jorge Palma, entre tantas outras.

Obrigado a todos os artistas que muito me ajudam nesta caminhada. Viva a pele de galinha!

Nuno Machado

25/05/2024

 

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