Amante da liberdade, apologista do desprendimento

Foi através do meu irmão  que ,no Natal de 2000, me ofereceu o livro ” Off-Side ” de Gonzalo Torrente Ballester, que me iniciei no conhecimento deste extraordinário escritor.

Nascido na Galiza, em 1910, numa aldeia próxima de Ferrol, estudou e formou-se em Filosofia e Letras e mais tarde em Direito. Deu aulas em várias universidades espanholas e americanas. Teve 11 filhos de 2 casamentos e faleceu em 1999.

Li grande parte da sua obra. A crítica considera aliás que ” A Saga e Fuga de JB ” é o grande romance espanhol do século XX “.

Porém, para mim, a trilogia Os Prazeres e as Sombras, completada com ” Onde os ventos mudam ” e ” Páscoa Triste “, é a obra que mais me fascina.

Carlos Deza, um dos últimos descendentes da família mais aristocrática duma terra na Galiza, regressa após estudos de psiquiatria em França. Ele é o Senhor – amante da liberdade e apologista do desprendimento. A sua família é confrontada com a emergência de um burguês enriquecido, Cayetano Salgado, homem do povo.

A trama centra-se na luta entre dois mundos: o velho mundo rural, piscatório, dominado pela aristocracia mas em acentuada decadência, face à ascensão do novo mundo industrial e capitalista, centrada na construção naval moderna.

O caciquismo aristocrático versus o poder industrial.

A literatura espanhola vem-me tocando nestas últimas décadas, mas esta obra que já li duas vezes é a mais marcante.

Tal como Carlos Deza, amante da liberdade e apologista do desprendimento, reflito muitas vezes nesses valores e interrogo-me:

Nos nossos dias, com a nossa sociedade de grande consumo, o desprendimento é possível?

Obrigado.

Nuno Machado

 

 

 

9 comentários

  1. É possível mas excepcional…
    Irá, com certeza, haver, dentro em breve. movimentos anti capitalistas ,numa híbrida mistura hippie/franciscana …Serão movimentos minoritários de raiz romântica,radicais,. os quais tenderão a questionar a dicotomia esquerda/direita…
    Já agora…Uma amiga dos meus filhos, alemã,37 anos.bióloga,com doutoramento…. Ensina os filhos ( 5 e 8 anos) a lamberem os pratos no final da refeição Ela e o marido tb o fazem

    1. Olá Teresa,
      Gosto da mistura hippie/franciscana.
      Vejo o desprendimento como uma atitude racional face aos disparates que nos rodeiam.
      E em ambiente urbano não é fácil.
      BJ

  2. Olá tio.
    Tenho lido atentamente os seus textos, apesar de não os comentar, mas gosto muito das suas reflexões.
    Relativamente a esta questão do desprendimento, acho que é possível sim. No que respeita a certos consumos, que normalmente estão concentrados nas grandes cidades, é possível o desprendimento sim. Quando nos mudamos para o campo e não temos as lojas à porta de casa, a nossa perspectiva de consumo muda!!
    Eu estou contente por este desprendimento do consumo.
    Um beijinho

    1. Olá Maria,
      Ainda bem que partilhas essas preocupações.
      No campo será mais fácil fazê-lo, mas nas cidades não só é possível como desejável.
      Bj

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