Espanha – A unidade condenada?

De tudo quanto li sobre a Guerra Civil de Espanha, fiquei com uma noção clara dos níveis de atrocidades cometidas por ambas as partes.

Da ” Guerra Civil de Espanha ” de Hugh Thomas, aos relatos ( parciais ) de Ernest Hemingway em ” Por quem os sinais dobram “, um dos que mais me marcou foi o de Javier Cercas em ” Soldados de Salamina “. Cercas aborda a guerra civil sem preconceitos ideológicos, conseguindo, por isso mesmo, avaliar ambos os lados da contenda.

Em traços gerais, é a história em torno de Rafael Sanchez Mazas ideólogo da Falange Espanhola e colaborador de José António Primo de Rivera. Com a guerra a terminar, Sanchez Mazas está preso em Barcelona, mas escapa a um fuzilamento coletivo.

Foge e na sua perseguição é encontrado por um soldado republicano que lhe poupa a vida e o liberta. Este soldado é transformado em herói, tal como fizeram muitos dos leitores.

É um pouco com este espírito que Fernando Aramburu, escreveu ” Pátria “, que relata o ambiente em que  o País Basco viveu perante a ameaça da ETA, dando-nos a dupla perspectiva de uma família dum pequeno empresário assassinado pela ETA, perpetrado por um grupo ligado à família do seu melhor amigo. É um relato impressionante, sobre a resistência das famílias ao medo. Este livro foi adaptado para televisão ( HBO série com o mesmo título ).

Lembrei-me de tudo isto ao ver que tudo indica que Pedro Sanchez venha a formar governo de novo.

Não me choca que o partido mais votado em eleições, mas que não consiga uma maioria parlamentar, não forme governo.

Choca-me, isso sim, que Sanchez vá formar uma maioria contranatura. Vai ter de contar com o apoio dos independentistas catalães ( Junts ), da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC ) e de partidos nacionalistas bascos.  A que preço? Com que contrapartidas?

Ou seja, é uma aliança que procura garantir o poder pelo poder, ” um governo destrutivo ” como diz Feijóo.

É lamentável que se tivesse enterrado o pacto entre PP e PSOE que caucionou durante muitos anos a estabilidade em Espanha, segundo o qual, o partido com maioria – ainda que relativa – formava governo, tendo garantida a abstenção do maior partido da oposição.

Ao pactuar com independentistas e herdeiros da ETA, o governo terá em si mesmo o gérmen que ajudará a destruir a unidade espanhola, cada vez mais condenada ao fracasso.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *