O legado de Pavarotti

Hoje é dia de recordar um dos meus grandes ídolos, Luciano Pavarotti.

Nascido no Norte de Itália, em Modena (1935 ), era filho de um padeiro e tenor (embora amador) e de uma operária fabril. A Segunda Guerra Mundial fez com que a família se mudasse para o campo, onde desenvolveu interesse pela agricultura.

Com 9 anos, começou a cantar com o pai no coro da terra.

Mais tarde, gorados os sonhos de ser guarda-redes de futebol, graduou-se na Escola Magistrale tendo sido professor durante dois anos.

Em 1954, recebeu aulas de Arrigo Pola, professor que o lançou em 1955 no Corale Rossini. Posteriormente, tornou-se cantor profissional e conheceu Adua Veroni com quem viria a casar.

Com a ida de Arrigo Pola para o Japão, passou a estudar com Ettore Campogalliani, também ele professor de Mirella Freni, cuja mãe fora colega da mãe de Pavarotti e que também desenvolveu uma carreira lírica assinalável.

Ultrapassado um problema nas cordas vocais que provocaram um autêntico desastre num concerto em Ferrara, arrancou para uma carreira imparável em 1961.

Rodolfo em La Bohème, Duca de Mantova em Rigoletto, uma parceria de dezenas de papéis com Joan Sutherland que culminaram com a sua estreia nos Estados Unidos cantando Lucia de Lamermoor de Donizetti (1965 ).
Seguidamente, estreou-se no Scala, em La Bohème, com Mirella Freni, sob a batuta de Herbert Von Karajan.

Em 1966, La Fille du Régiment de Donizetti em Covent Garden que repetiria em 1972 no Metropolitan Opera House com um tal êxito que foi chamado 17 vezes ao palco.

Seguiram-se presenças televisivas com  ” Live from the Met “, Grammys, discos de ouro e platina, Festival de Salzburgo, Ópera Estatal de Viena, Lincoln Center e todas as grandes salas do mundo.

Em 1990, tornou-se ainda mais conhecido quando cantou a área ” Nessum Dorma ” da ópera Turandot, de Puccini, música tema do campeonato do mundo de Futebol disputado em Itália.

Um pequeno parêntesis para referir que estivemos precisamente nessa altura em Itália e quando nos dirigíamos de Nápoles para a Calábria, pela maravilhosa marginal, parámos num miradouro e concordámos que a povoação que não conhecíamos de todo e que víamos ao longe era onde iríamos passar uns dias. Era Sorrento. Em frente a Capri. Deslumbrante. Espero um dia voltar. Foi aí que o nosso Tiago fez os seus 14 anos.

 

Foi aí que mais uma vez testemunhei o carinho que a Itália lhe demonstrava. Por todo o lado se anunciava que Luciano Pavarotti tinha sido nomeado Cidadão Honorário de Sorrento, fosse em cartazes colados nas paredes ou emoldurados em latão, parecidos com pequenos oratórios. Eu que andava fascinado com o ” Torna a Surriento “… O mar, o amor, as laranjas – a paz ali tão perto!

Seguiu-se o lançamento de ” Os três tenores “, com Plácido Domingo e José Carreras, que encerraram o Campeonato do Mundo de Futebol, que passou a ser a gravação de música erudita mais vendida na história.

12 de Janeiro de 1991, a oportunidade de concretizar mais um sonho. Ver Pavarotti ao vivo no Coliseu dos Recreios. Donizetti, Verdi, Massenet, Puccini, Leoncavallo e canções napolitanas.

Memorável. Uma voz que me emociona, sempre!

Para além de récitas grandiosas – Hyde Park ( 150.000 pessoas ), Central Park (500.000) e Torre Eiffel (300.000), Os Três tenores tiveram várias aparições, nomeadamente nos Campeonatos Mundiais de Futebol de 1994 ( Los Angeles ), 1998 ( Paris ) e 2002 ( Yokohama ).

A partir do final dos anos 90 cantou com estrelas da música pop como Bon Jovi, Bono, Sting, Bryan Adams, Mariah Carey, Elton John, Queen, Sheryl Crow, Zuchero, Eros Ramazotti e Tracy Chapman entre outras.

Com elas fez o ” Pavarotti & Friends ” que para além de continuar a sua senda de popularizar o canto lírico, passou a apoiar causas sociais ( Pavarotti Music Centre em Mostar na Bósnia-Herzegovina, vítimas do sismo de Spitak na Arménia, amigo da Princesa Diana e na arrecadação de fundos para a eliminação de minas de guerra ). Mensageiro da Paz da ONU, contribuiu para arrecadar grandes contribuições para causas sociais.

Em 2006, na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Turim, teve a sua última aparição pública.

Morreu em 6 de Setembro de 2007, vítima de cancro no pâncreas.

Não é fácil sintetizar a admiração por um ídolo.

Não sei o que mais gosto. Tanta potência, tanta versatilidade, tanto sentimento. Mas talvez Nessum Dorma, Vesti la Giubba, Una furtiva lagrima e E lucevan le stelle, sejam as minhas árias preferidas.

Porém, ao pensar na sua voz portentosa, na sua irradiante simpatia, na forma como popularizou o canto lírico junto das grandes massas sobretudo com o projeto “Os três Tenores” – a verdadeira democratização do canto lírico – e na sua entrega às causas sociais como com o “Pavarotti & Friends”, tudo fica mais simples.

Nestas vertentes podemos ver o grande legado de Luciano Pavarotti.

Obrigado por me deixares sempre com pele de galinha, sempre!

Cascais, 27 de Agosto de 2024

Nuno Machado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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