Para combater o tradicional pessimismo português

A história de Carlos Tavares, o homem que saiu de Portugal aos 17 anos para conquistar o mundo automóvel

A história de Carlos Tavares, o homem que saiu de Portugal aos 17 anos para conquistar o mundo automóvel
José Fonseca Fernandes

Trocou a gestão da Stellantis, quarta maior empresa automóvel do mundo, pelos negócios em Portugal, e explica: “Estou fora do país desde 1976 e chega-se a um momento na vida em que temos de assentar. Agora faço coisas que não fazia dantes mas que me dão muito gozo”

A história de Carlos Tavares, o homem que saiu de Portugal aos 17 anos para conquistar o mundo automóvel

Vítor Andrade

Coordenador de Economia

Há pouco mais de um mês tinha uma agenda frenética, gerida ao minuto, entre reuniões sucessivas com o Conselho de Administração responsável por 15 marcas automóveis, conferências de imprensa internacionais, viagens constantes entre continentes no jato privado do grupo empresarial a que presidia e era visita frequente de gabinetes de chefes de Estado e de Governo nos quatro cantos do mundo.

Agora é muito provável chegarmos à Póvoa de Santarém, onde passa a maior parte do tempo, e encontrá-lo a passear pelos terrenos da propriedade agrícola que ali adquiriu já há alguns anos ou então numa das suas vinhas do Douro, aos comandos de um trator ou de uma carrinha de caixa aberta, a acompanhar a época das podas dos vinhedos já despidos da folhagem amarela torrada do outono.

Mas os seus dias estão longe de se resumirem à contemplação do cenário bucólico das propriedades agrícolas. Carlos Tavares, o pragmático gestor português que chegou ao patamar mais alto na cena internacional, também dirige, a partir de Santarém, outros negócios que tem em terras lusitanas: dois na área automóvel, a RodaClássica, em Viseu, e a Adess, focada nos carros de competição, com sede em Vialonga, além de alguns projetos na área do turismo noutras zonas do país.

No que toca ao negócio agrícola propriamente dito, o que agora lhe toma mais tempo é o do Douro, onde tem vindo a preparar o seu primeiro vinho do Porto, que classifica como premium (com a marca Porto Amalho), para exportar para a China. “Não desejo a ninguém a tortura que é pôr de pé um projeto de exportação em Portugal”, confessa Carlos Tavares. “E é pena que seja assim. Na verdade, Portugal só está limitado pela burocracia.” Tirando isso, “temos um país excelente, e quero aqui dar forma a muitos outros projetos”, desabafa ainda o gestor.

Sobre a sua mudança radical de vida, tendo trocado a alta roda da gestão da Stellantis, que é a quarta maior empresa automóvel do mundo (com as marcas Abarth, Alfa Romeo, Chrysler, Citroën, Dodge, DS, Fiat, Jeep, Lancia, Leapmotor, Maserati, Opel, Peugeot, Ram, Vauxhall) pelos negócios com que vai pavimentando o seu regresso a Portugal, Carlos Tavares diz apenas isto: “Tenho 66 anos, estou fora do país desde 1976, apesar de cá ter vindo sempre com muita frequência, e chega-se a um momento na vida em que temos de assentar.” Se bem que, para ele, o conceito de ‘assentar’ pode ser sinónimo de geometria bastante variável, até porque, como faz questão de dizer, “agora faço coisas que não fazia dantes mas que me dão muito gozo”. Dito por outras palavras, não é pessoa para ficar parada e acomodada no conforto da sua reforma dourada.

O gestor iniciou a sua trajetória profissional na Renault, como piloto de testes — é de onde lhe vem o gosto pelo desporto automóvel, que continua a praticar nos tempos livres

Um dos seus amigos mais próximos, o empresário Paulo Pereira, ligado ao turismo e ao agroalimentar, na zona do Douro, e também com uma forte presença no mercado francês, garante que Carlos Tavares não vai ficar parado a olhar para a lezíria ou para os socalcos do Douro. Nada disso. “Chegou ao topo no mundo automóvel. As pessoas aqui não têm bem a noção da importância e da dimensão profissional deste homem, mas ele, em França, é uma espécie de pop star naquele sector, pois salvou várias empresas da falência e criou valor em todos os grupos que geriu. E, no entanto, não conheço uma pessoa mais patriótica. Muito honesto, com princípios, rigoroso, mas muito simples, humilde e não gosta de protagonismos, apesar de tratar por ‘tu’ muitos presidentes de algumas das maiores empresas mundiais”, enfatiza o empresário Paulo Pereira.

Até pode ser uma opinião suspeita e parcial, vinda de um amigo, mas o empresário reforça a sua admiração por Tavares e acrescenta que “Portugal precisa urgentemente de exemplos, e o exemplo de Carlos Tavares é um dos melhores, pois carrega consigo competência, profissionalismo, honestidade e muito pragmatismo, mas está sempre disponível para aprender com qualquer pessoa”.

A questão do patriotismo mencionada por Paulo Pereira não surge por acaso. Numa entrevista recente ao Expresso, Carlos Tavares já tinha invocado esse sentimento para justificar, em grande parte, o seu possível interesse na corrida à privatização da TAP, que considera que tem de ficar sob controlo de acionistas nacionais. Até porque, como explica, está em jogo “um ‘instrumento’ fundamental na estratégia que o país tem de ter obrigatoriamente como destino turístico que é”. E continua dizendo que “se o turismo representa cerca de 14% do nosso Produto Interno Bruto não podemos perder o controlo sobre a companhia aérea que nos garante o fluxo de visitantes de que precisamos para alimentar essa vertente da economia nacional”.

Por aqui se vê que Carlos Tavares, de 66 anos, está longe de pensar em reformar-se, apesar da indemnização milionária que terá negociado no momento da sua saída da Stellantis, no passado mês de dezembro, com o presidente do Conselho de Administração do grupo, John Elkann — herdeiro e neto de Gianni Agneli (principal acionista da Fiat desde a sua fundação).

Tavares, que em 2023 fez com que o grupo Stellantis tivesse faturado cerca de 190 mil milhões de euros, com um lucro líquido de 18,6 mil milhões de euros, estava a caminho de auferir uma remuneração a rondar os 36 milhões de euros pelo seu desempenho em 2024. Mas, apesar de já ter passado um mês sobre o final do ano, ainda não é conhecido o número exato, pois as contas finais ainda não foram publicadas. No entanto, como o seu ordenado depende (ou dependia) em 90% dos resultados do grupo, e como em 2024 a Stellantis registou quebras acentuadas nas vendas — muito devido ao fracasso da aposta nos carros elétricos —, “o meu ordenado vai cair brutalmente”, disse o gestor na entrevista que deu em dezembro ao Expresso.

O seu salário sempre foi alvo de polémica em França e, em 2021, quando terá superado os 60 milhões de euros, não foram apenas os sindicatos a considerarem “escandaloso” o montante auferido pelo gestor português, o próprio Presidente Emmanuel Macron também veio a terreiro criticar.

Aquele foi o ano em que se tinha consumado com sucesso a fusão, liderada por Carlos Tavares e John Elkann, entre o grupo francês PSA e o grupo ítalo-americano Fiat/Chrysler, que deu origem ao quarto maior grupo automóvel à escala global. E o gestor português acabou por ser recompensado pelos resultados conseguidos.

Apesar das críticas públicas feitas pelo Presidente francês ao montante das remunerações obtidas por Tavares, a verdade é que os dois se dão muito bem, e o gestor confessa mesmo a sua admiração pelo político. Considera-o “um homem muito inteligente, claramente acima da média, com muitas qualidades e um dos melhores da sua geração”. “Pena não ser compreendido pelo seu próprio país. E tenho de admitir que ele, como outros líderes mundiais que conheci, têm um trabalho quase impossível. Por isso temos de os ajudar tanto quanto pudermos.”

Ainda sobre o polémico salário que auferiu, sobretudo aos comandos da Stellantis — houve outros grupos multinacionais antes deste —, Carlos Tavares equiparava o seu contrato ao de um piloto de Fórmula 1 ou de um jogador de futebol: “A empresa quer comprar os serviços a este gestor, e o gestor está disposto a oferecer os seus serviços por um certo montante. É uma transação, ninguém é obrigado a aceitar.” “Depois há uma outra dimensão”, que, segundo o gestor, “podemos qualificar do domínio da ética, relacionada com a sociedade, em que há partidos políticos e linhas de pensamento segundo as quais um gestor não deve ganhar mais de xis vezes o salário médio da empresa. É um modelo de sociedade que pode ser respeitável para alguns e pode ser inaceitável para outros”.

Polémicas à parte, Tavares sempre foi muito próximo de personalidades do mundo da política, com quem tinha de lidar por questões meramente profissionais. Explica que, sempre que tinha um encontro com um chefe de Estado ou de Governo, nunca lhes levava problemas, mas apenas soluções. No entanto, nem assim evitou discussões com Joe Biden, Angela Merkel ou Macron, entre outros.

A prova de que o respeito e a admiração entre Tavares e Macron era mútuo foi testemunhada pelo Expresso no passado mês de outubro. Decorria o Salão Automóvel de Paris, e o Presidente francês fez questão de percorrer praticamente todos os pavilhões do evento. Na verdade, Macron, cuja popularidade já teve melhores dias, protagonizou uma passagem hipermediática de quase uma hora por alguns stands do Salão, mas apenas com visita a grandes marcas escolhidas a dedo pela sua equipa e pelos membros da sua entourage.

Visitou as principais marcas francesas, ignorou olimpicamente as inúmeras construtoras chinesas e americanas presentes e esteve mais de 25% do seu tempo no centro de exposições da Expo Portes de Versailles aos comandos do carro mais futurista exposto no evento — o protótipo da Peugeot Inception Concept —, ou seja, entre 15 a 20 preciosos minutos com as mãos no volante daquele exemplar único e numa animada e prolongada conversa com o gestor português Carlos Tavares, que, segundo se comentava, terá sido tudo menos de circunstância.

Sempre que tinha um encontro com um chefe de Estado ou de Governo nunca lhes levava problemas, mas apenas soluções. No entanto, nem assim evitou discussões

Na prática, era a França, representada ao seu mais alto nível pelo Presidente da República, entre centenas de jornalistas e profissionais do sector, a passar a mensagem, via Carlos Tavares, de que estava inequivocamente com um dos pilares da sua economia. É que a indústria automóvel tem um peso considerável no PIB francês, emprega centenas de milhares de pessoas e impulsiona fortemente as exportações daquele país.

Carlos Tavares, que saiu de Portugal com 17 anos, em 1976, como bolseiro para estudar engenharia mecânica na École Centrale de Paris, recorda que, algumas décadas mais tarde, já depois de ter posto de pé a PSA (grupo que reunia, entre outras, as francesas Peugeot e Citroën), um dia se cruzou com o então ministro da Indústria e lhe disse: “Olhe, estamos quites. Vocês [o Estado francês] apostaram em mim, há uns anos, enquanto estudante de engenharia, e agora aqui tem a empresa, produtiva e de boa saúde financeira.”

Tavares iniciou a sua trajetória profissional na Renault como piloto de testes — é de onde lhe vem o gosto pelo desporto automóvel, que continua a praticar nos tempos livres. Depois foi para o gabinete de estudos da marca, onde trabalhou na área das suspensões, e dali evoluiu para a estratégia das plataformas da Renault. É nesta altura que conhece Carlos Ghosn, um gestor franco-brasileiro de origem libanesa, considerado um dos melhores do seu ramo no início da década de 2000. Foi ele que mais tarde levou Carlos Tavares para a Nissan, empresa onde foi subindo na hierarquia da gestão.

Ghosn acabaria por ser detido em 2017, por suspeita de uso indevido de ativos da empresa, mas foi ainda na Nissan que Carlos Tavares, aos 42 anos, com a sua atividade centrada no Japão, se apercebeu de que poderia ter uma longa carreira à sua frente no sector automóvel. E confessa que o polémico Ghosn — muito antes da sua detenção — “foi uma pessoa com quem eu aprendi muito nesta indústria”. Diz, descomplexadamente, que Ghosn “foi, provavelmente, o meu melhor professor e faz parte da sorte que tive na minha carreira”.

Foi na sua passagem de sete anos pela Nissan que Tavares foi vendo as suas responsabilidades de gestão irem aumentando de ano para ano: “Senti que tinha um nível de compreensão das componentes daquele negócio que me permitiam obter resultados. E nunca pedi um aumento de responsabilidade. Foi-me sempre confiada essa tarefa em todos os sítios por onde passei.”

Nesta altura da sua vida, Carlos Tavares estava casado e já tinha três filhas, que estavam baseadas em França, pelo que não foi fácil gerir as vertentes profissional e familiar. Mas confessa que a sua esposa, que é francesa, sempre foi muito com­preensiva com a carreira que optou por seguir. Depois do Japão, em 2009, seguiu-se uma estadia de dois anos e meio nos Estados Unidos, mas com a família a continuar em terras gaulesas. E é daqui que é chamado para ser o número dois da hierarquia de gestão da Renault.

Foi uma espécie de regresso à casa-mãe, onde tudo tinha começado, mas, pouco tempo depois, um desentendimento com os seus pares resultou no seu afastamento daquele grupo, ficando três meses a analisar propostas de trabalho que lhe iam chegando a um ritmo semanal. Na sequência deste curto interregno ingressou na liderança do grupo PSA, onde se manteve até à criação do colosso industrial que viria a ser a Stellantis, em 2021, que, como dizia frequentemente em conversas informais com jornalistas, geria um volume de negócios “quase equivalente ao PIB português”.

Neste que passou a ser (e ainda é) o quarto maior grupo automóvel à escala global, foram várias as ocasiões de contactos ao mais alto nível com alguns líderes mundiais, situação com a qual garante que sempre lidou com muita naturalidade e com que nunca se deslumbrou.

E recorda, por exemplo, um episódio com a chanceler Angela Merkel, quando o grupo se propôs adquirir a Opel. “Cheguei ao pé dela e disse-lhe: ‘Tem aqui uma empresa de 35 mil pessoas que já está a ter mil milhões de euros de prejuízo por ano há 15 anos. Portanto, esta empresa vai rebentar.’” “E a General Motors [que era a proprietária da Opel nessa altura] não vai poder aguentar mil milhões de prejuízos todos os anos. Portanto, vai ficar com um problema social de 35 mil pessoas. E eu estou aqui para lhe resolver o problema. Eis como o vou resolver…” Tavares diz que, “por sorte, ou por outra razão qualquer, ela aceitou a minha explicação e disse: ‘Então, faça.’ E fizemos, em 18 meses”.

Passado esse tempo regressou ao seu gabinete para lhe dizer: “‘Olhe, está feito. Obrigado pela sua confiança, o trabalho está feito.’ E, portanto, desde que se fale com os políticos com a vontade de fazer parte da solução, geralmente as coisas tornam-se coisas positivas.”

A determinada altura, pela sua rigidez de processos, nomeadamente nos reajustamentos que teve de fazer em várias das marcas que foi gerindo ao longo dos anos, ganhou a alcunha de ‘samurai’ dos cortes no sector automóvel. Quando lhe perguntamos como lida com essa espécie de ‘rótulo’ que lhe foi associado, em especial por alguns sindicatos com que teve de lidar, responde que acha um exagero, até porque a gestão de uma empresa não trata só de custos, mas também de receitas. Mas garante que não fica chateado com a situação. “São os sindicatos, são mesmo assim”, resume.

Em Portugal, diz Tavares, é preciso “elevar o nível do discurso político em geral ou, caso contrário, continuaremos a discutir coisas menores

Após tantos anos a lidar com políticos, praticamente em todos os cantos do mundo e das mais variadas sensibilidades, da esquerda à direita, será que Tavares sente algum apelo por essa atividade, que tanto diz admirar, de autêntico serviço público, até em nome do seu patriotismo assumido? “Não. Admiro muito alguns políticos, mas não. Até porque a minha esposa também me está sempre a dizer que não me devo meter nisso. E acho que ela tem razão.” Mas garante que, obviamente, “tenho vontade de ajudar o meu país. Não há qualquer tipo de dúvida. Mas acho que se pode ajudar o país de uma maneira diferente, sem ter de se ser político”.

Apesar do tradicional pessimismo português, diz que, quando anda pelo estrangeiro — e passou os últimos três anos a fazer uma semana em Portugal, outra no centro da Europa, outra nos EUA e outra no resto do mundo —, “todos me falam do nosso país como sendo um caso de sucesso. Os portugueses têm de saber disto, porque se calhar pensam o contrário. Os portugueses têm de ouvir que, lá fora, os resultados macroeconómicos de Portugal, em termos de dívida, orçamento, desemprego, crescimento, constituem um exemplo de sucesso para muitos países”.

Mas reforça que o país deve criar mais riqueza, para termos mais qualidade de vida, só que, para isso, os portugueses terão de ser mais produtivos, “o que passa por reduzir a energia que se consome nas burocracias”. E uma maneira de trabalharmos mais e melhor é, segundo Carlos Tavares, “gastarmos menos energia em ações não produtivas de natureza burocrática”.

Acontece que, no seu dia a dia, os portugueses sentem que há, da parte dos políticos, falta de respostas para muitos dos seus problemas, o que, segundo Tavares, pode conduzir aos extremismos. E enfatiza que “esse fenómeno é real, é um perigo e temos de estar alerta”.

Explica ainda que temos uma doença que é estarmos sempre a olhar para o norte da Europa como sendo um bom exemplo a seguir, “só que isso é uma doença, porque o norte da Europa agora já está doen­te, e é óbvio que não queremos ir nessa direção, que é a da fragmentação da sociedade e é uma dimensão de enfraquecimento da nossa democracia”. Defende que se o centro-esquerda e o centro-direita não tiverem capacidade de execução, “vamos criar desilusões. E essas desilusões vão conduzir os cidadãos para os extremos”.

Não obstante a boa imagem que diz existir lá fora sobre Portugal, sublinha que nos falta um plano a longo prazo. “Temos os orçamentos anuais, é certo, mas uma das coisas que devemos decidir é se vamos continuar no rumo atual, na perspetiva de sermos um centro de férias para os europeus do Norte, para os americanos e para os chineses, ou se queremos mais do que isso. Eu ambiciono para o meu país outra coisa do que ser simplesmente um centro de férias.”

Diz que é inadmissível que o país perca para o estrangeiro 30% dos jovens acabados de formar nas universidades, simplesmente porque o custo de vida em Portugal é demasiado elevado e não se praticam salários compatíveis com as qualificações desses mesmos jovens. “É urgente criar em Portugal um clima propício ao empreendedorismo, de forma a fomentar, entre os jovens, a apetência pela criação de negócios e empresas que possam contribuir para a retenção de talento.”

E dá como exemplo o que se passou, recentemente, no seio da sua própria família: duas das suas três filhas optaram por trocar a França por Portugal, “pela simples razão de acharem que a vida, aqui, pode ter mais perspetivas de estabilidade e sucesso”. Obviamente que têm um pai que é um dos gestores mais conceituados da atualidade e que também difunde otimismo e conforto económico, “mas foram elas que quiserem fazer essa escolha”.

Tavares faz questão de deixar claro, porém, que a questão da fuga de talento não é um exclusivo português. Diz que em várias das suas deslocações a Sillicon Valley, na Califórnia, deparou com centenas de jovens engenheiros franceses recém-licenciados no seu país que resolveram ir viver para os EUA por não encontrarem soluções em França. “Ou seja, convém colocarmos as coisas em perspetiva. Não estamos entre os países mais atrativos para jovens, mas não somos os únicos a ter de melhorar.”

Diz ainda que, em Portugal, é preciso “elevar o nível do discurso político em geral ou, caso contrário, continuaremos a discutir coisas menores”, numa espécie de “folclore generalizado”. Mas, acrescenta o gestor, “se calhar gostamos disso nos termos em que nos é servido nas notícias, praticamente a um ritmo diário”.

Política à parte, em matéria de gostos pessoais, há algo de que Carlos Tavares não abdica por nada neste mundo: as corridas de carros, que pratica desde 1980. Já participou em mais de 500 provas, de resistência e de velocidade, e continua a ir pelo menos a cinco/seis por ano, um pouco por toda a Europa e também fora dela. “É como uma droga, não me consigo ver livre disto.”

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *