Ucrânia – sinais de divisão no apoio do Ocidente

Passados quase 19 meses da invasão da Ucrânia, há sinais de divisão do mundo ocidental.

No início, disse-se – e bem – que a invasão tinha ressuscitado a NATO, a qual estava um pouco adormecida. A Europa, habituada à ideia do chapéu de chuva americano, mais preocupada em fazer negócios com o leste, desinvestiu ao longo dos anos na sua defesa. Os EUA, cansados desta realidade, também não fomentaram muito o fortalecimento da NATO.

O Ocidente lançou vários pacotes de sanções económicas, financeiras, comerciais, que causaram alguma mossa inicial, mas que, a pouco e pouco se revelaram pouco eficazes.

Apesar de tudo, o Ocidente conseguiu num esforço conjunto inédito, diminuir drasticamente a dependência do gás natural russo, o que contribuíu para não alimentar ainda mais a máquina de guerra russa,  além de o preço de mercado ter caído mais de 50% desde 1/3/22.

Já no tocante ao petróleo, a ideia lançada por Mario Draghi de estabelecer um teto no preço a pagar pelo Ocidente à Rússia, terá surtido algum efeito inicial, mas a aliança OPEP/Rússia tem falado mais alto.

Os russos (oligarcas incluídos ) continuam a fintar os embargos, os congelamentos, iludindo as autoridades de todo o mundo, algumas até na própria Europa ( Chipre é o caso mais significativo ).

Há uma espécie de gato e do rato. O Ocidente deixa de comprar gás, a Rússia vende à China ( onde está em construção um gasoduto gigante ) ou à Índia ( aqui diz-se com descontos de 35%…). Idem em relação ao petróleo. Desconheço o que se passa com metais preciosos.

Do ponto de vista de apoio político, de uma situação de condenação geral da invasão na Assembleia Geral da ONU em Março de 2022 ( 141 votos a favor da condenação, 5 contra – Rússia, Bielorússia, Eritreia, Coreia do Norte e Síria – e 35 abstenções ). De notar que entre os abstencionistas se contavam a China, Índia, Irão, Cazaquistão, Paquistão, África do Sul e muitos amigos da pilhagem russa como Argélia, República Centro-Africana, Congo, Guiné-Equatorial, Mali, Uganda, Senegal, Tanzânia, Zimbabwe e Moçambique.

Esta realidade tem vindo a mudar. Alguns países que tinham votado contra a invasão, como a Colômbia, o Brasil, o Equador e muitos outros, estão a amaciar a sua posição, refugiando-se numa pretensa atitude neutral ou alegando que este problema não lhes diz respeito.

Mais sérios, e preocupantes, são sinais de divisão dentro do mundo Ocidental.

Da ambivalência da Hungria, às restrições às importações de produtos agrícolas ucranianos – Polónia, Hungria, Bulgária e Eslovénia, das divisões no partido Republicano dos EUA quanto à continuidade do apoio militar e financeiro à Ucrânia, até às declarações dos dirigentes polacos que vão suspender a ajuda de equipamento militar à Ucrânia, respondendo às críticas de Zelensky na ONU.

Cabe aqui citar uma passagem do diário de Chopin, fervoroso nacionalista polaco que, em 1831,  na altura em Estugarda e perante mais uma agressão russa, dizia:

” Oh Deus, estás aí? – Estás aí e não Te vingas? – Para Ti ainda não basta de crimes moscovitas? Ou então… ou então és Tu próprio moscovita?

Apesar de alguns desvios e atitudes menos próprias de alguns dirigentes ucranianos, não podemos esquecer que  é a liberdade, a segurança e o bem estar do mundo ocidental que estão em causa. Tudo tem de ser feito para apoio desta causa, incluindo lembrar e citar até à exaustão as interrogações de Chopin.

Nuno Machado

21/9/2023

 

 

8 comentários

  1. Olá Nuno!
    Para onde caminhamos?
    Edgar Morin, esteve entre nós, pensou em voz alta! Algum canal de televisão fez alguma referência?
    Que tristeza…
    Obrigado pela insónia e continua sem tomar n-a-d-a para dormir

  2. Excelente meditação, a tua. Faz-nos pensar. As grandes bestas, fazem o que querem. Os pequenos, ou são arrasados ou tornam-se lambedores-de-botas (da tropa, é claro….). Um abraço, e diverte-te enquanto és jovem.

  3. Olá Nuno
    A princípio pensei em apenas escrever Que triste! mas como gosto de História e nada mais me surpreende que a bestialidade humana ( à genialidade cognitiva/tecnológica já me habituei) permito me reequacionar o atual conflito debaixo daquela velha mas muito sábia teoria Nada se perde tudo se transforma (Lavoisier).
    Haverá neste conflito”, á la longue”,algo a ganhar para a nossa espécie? Será necessário o horror para pôr em marcha uma grande nova etapa na História do Homem?

    Continuo a pensar que é necessário e urgente uma profunda compreensão do Humano como Espécie. Na verdade e ironicamente uma estranha ultrapassagem do conceito renascentista vendido pelo Homem do Vitrúvio. ( o Homem).Definitivamente nós não somos o Centro!
    Provavelmente teremos que criar uma nova religião, no sentido em que serão criados e impostos dogmas urgentes de adaptação planetária.
    Olha … Já nem sei o que escrevo..

    Que tal usar a IA para eliminar o Putin

    1. Olá Teresa,
      Obrigado pelo teu comentário.
      Apesar de tudo, penso que a espécie tem muito a ganhar, pois não será a primeira vez que a razão vai vencer a brutalidade e o horror. Que o Bem triunfará sobre o Mal.
      Quanto à utilização de IA para um fim tão nobre, parece perfeito.
      Aliás, segundo comentário do Kremlin, o último ataque ucraniano ao comando naval russo em Sebastopol, de que resultaram inúmeros mortos entre os oficiais, tudo terá sido levado a cabo com recurso a IA e intervenção da intelengtsia dos EUA e Reino Unido.
      Oxalá tenha sido verdade.
      E, já agora, que tenha sido um ensaio para voos mais altos!

      Bj
      Nuno

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *